GIRO NO STREAMING – Se você gosta de drama jurídico, investigação, segredos e personagens que não são exatamente aquilo que parecem, pode colocar Habeas Corpus na lista — porque a nova série brasileira da Netflix chegou com força.
Primeiro drama jurídico brasileiro da plataforma, a produção acompanha Inez Franco, vivida por Marjorie Estiano, uma respeitada professora de Direito e ex-advogada criminalista que reúne um grupo de estudantes para reexaminar o caso de Jonathan, um jovem condenado por um crime que afirma não ter cometido. São oito episódios que misturam tribunal, investigação, conflitos pessoais e dilemas éticos.
Mas o que realmente prende a atenção é que Habeas Corpus não transforma seus personagens em heróis perfeitos. Todo mundo tem alguma coisa a esconder. Todo mundo erra. E, em determinados momentos, fica difícil saber onde termina a busca por justiça e começa a vingança.
Marjorie Estiano encontra em Inez uma personagem cheia de camadas. Ela não precisa exagerar para transmitir a culpa, a tensão e os conflitos que acompanham a professora.
A atriz também mergulhou no universo jurídico antes das gravações: acompanhou julgamentos e estudou não apenas os argumentos utilizados pelos advogados, mas também a postura e a maneira como eles constroem suas narrativas diante do tribunal.
E isso aparece na tela.
Inez tem aquela presença que domina uma sala sem precisar levantar a voz. É uma personagem que carrega o peso do passado, mas continua tentando fazer aquilo em que acredita.
E de outro lado se existe uma personagem que promete dividir opiniões, é Marina, interpretada por Any Gabrielly.
Inteligente, determinada, provocadora e cheia de segredos, Marina entra para o grupo de revisão criminal com uma motivação pessoal que vai sendo revelada aos poucos. E, quanto mais conhecemos a personagem, mais percebemos que suas intenções não são tão simples quanto parecem.
Any consegue equilibrar muito bem a força e a vulnerabilidade da personagem. Marina é uma jovem que carrega uma dor enorme, mas isso não transforma automaticamente todas as suas escolhas em escolhas certas.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das melhores coisas da série: você pode compreender uma personagem sem necessariamente concordar com ela.
A própria Any reconheceu que Marina toma decisões difíceis de defender e que a personagem mente para conseguir sobreviver.
E não dá para falar de Habeas Corpus sem falar do grupo de estudantes.
Marina, Kim, Bernardo, Raquel e Lima formam uma espécie de pequena força-tarefa comandada por Inez para investigar o caso de Jonathan. Cada um possui personalidade, visão de mundo e interesses diferentes — e nem sempre eles concordam sobre o que é justo.
Nicolas Lee, como Kim, funciona como o alívio cômico da turma.
Felipe Ricca, Luiza Gabus, Pedro Roza e Any Gabrielly completam esse núcleo de futuros advogados, que acaba se tornando uma das partes mais interessantes da produção.
E existe uma curiosidade deliciosa: a amizade criada entre os cinco atores ultrapassou as gravações. Segundo o Tudum, eles continuaram próximos depois da série, inclusive com encontros e viagens.
Uma preocupação evidente da produção foi fazer o universo jurídico parecer convincente.
A série contou com consultoria do Innocence Project Brasil e de advogados, que ajudaram com termos jurídicos, procedimentos e revisão de cenas. Os roteiristas também conversaram com estudantes de Direito para aproximar a ficção da realidade.
O resultado é uma série que consegue falar de condenações injustas, racismo, desigualdade, ética e falhas do sistema de Justiça, mas sem abandonar o melodrama — algo que dá uma identidade bem brasileira à produção.
Habeas Corpus sabe exatamente o tipo de série que quer ser.
Ela tem tribunal, investigação, personagens cheios de segredos, relações complicadas e aquele famoso final de episódio que faz você pensar: “só mais um”.
E o grande mérito está justamente em não entregar personagens completamente bons ou completamente ruins. A série coloca todos diante de escolhas difíceis e deixa uma pergunta rondando a história:
Até onde você iria para corrigir uma injustiça?
Com Marjorie Estiano entregando uma protagonista poderosa, Any Gabrielly mostrando uma nova faceta como atriz e um grupo jovem que funciona muito bem junto, Habeas Corpus chega mostrando que o Brasil também sabe fazer drama jurídico com personalidade.
Agora me conta: você já começou a assistir? De que lado está: Inez ou Marina?














