GIRO NO CINEMA – O frio extremo pode até estar do lado de fora, mas, em “Antártida”, o que realmente incomoda está dentro da estação. E essa talvez seja uma das escolhas mais interessantes do filme.
Dirigido por Bruno Safadi, com roteiro de Cláudia Jouvin, o thriller psicológico brasileiro chegou aos cinemas em 17 de setembro reunindo nomes como Marina Ruy Barbosa, Andréa Beltrão, Lázaro Ramos, Leandra Leal e Antonio Calloni.
A história acompanha Inês (Marina Ruy Barbosa), uma pesquisadora que chega à fictícia Estação Comandante Diniz, na Antártida. Na primeira noite de isolamento, ela sofre uma violência sexual e não consegue identificar o agressor. A partir daí, todos os homens da base passam a ser suspeitos.
O que poderia ser apenas mais uma história de investigação ganha outra dimensão porque ninguém está simplesmente esperando pela descoberta do culpado. O ambiente fechado, o isolamento e a convivência forçada fazem com que a desconfiança cresça a cada momento.
Elisabeth (Andréa Beltrão), comandante da estação, assume a investigação enquanto precisa lidar com um grupo cada vez mais dividido. E é nesse ponto que o filme consegue ir além do mistério: a violência contra a mulher abre espaço para discutir culpabilização da vítima, relações abusivas, violência psicológica, hierarquia e sororidade.
Andréa Beltrão funciona muito bem nesse lugar de autoridade e determinação, enquanto Marina Ruy Barbosa encara uma personagem bastante diferente de trabalhos anteriores. Lázaro Ramos, Leandra Leal e Antonio Calloni completam o elenco e ajudam a sustentar aquela sensação incômoda de que qualquer pessoa pode esconder alguma coisa.
Outro detalhe que merece ser destacado é a produção. Embora a história esteja ambientada na Antártida, as cenas foram construídas em estúdio no Rio de Janeiro, utilizando tecnologia e efeitos para reproduzir a paisagem e o ambiente antártico. E o resultado consegue cumprir seu papel: o espectador entra naquele universo sem precisar questionar o tempo todo onde aquilo foi filmado.
Mas o que mais chama atenção em “Antártida” é que o filme não parece interessado apenas em responder à pergunta mais óbvia: quem cometeu o crime? O suspense funciona também como uma maneira de falar sobre medo, silêncio, poder e sobre o que acontece quando pessoas são confinadas em um ambiente onde seus próprios segredos começam a pesar tanto quanto o frio do lado de fora.
É uma proposta interessante para o cinema nacional, especialmente por apostar em um thriller psicológico e usar o gênero para tratar de uma questão tão delicada.
“Antártida” não é daqueles filmes que terminam quando sobem os créditos. A história deixa algumas perguntas pelo caminho — e talvez seja justamente aí que esteja seu maior mérito.
Para quem gosta de suspense, investigação e histórias que continuam rendendo conversa depois da sessão, vale colocar o filme na lista.






