GIRO NA CURIOSIDADE – Água que passarinho não bebe, pinga, aguardente, cana, caninha, marvada, branquinha, mé. Pode chamar como quiser. No Brasil, ela atende por muitos nomes, mas um deles atravessou preconceitos e ganhou o mundo: cachaça.
Se os escoceses têm o whisky, os russos têm a vodka, os mexicanos têm a tequila e os japoneses têm o saquê, o Brasil tem a cachaça. Mais do que uma bebida destilada, ela carrega história, identidade e uma boa dose de resistência.
Celebrado em 13 de setembro, o Dia Nacional da Cachaça ‘celebra’ uma bebida que nasceu nos engenhos de cana-de-açúcar e passou por uma trajetória diretamente ligada à formação da sociedade brasileira.
Pesquisadores da Embrapa apontam que a cachaça surgiu em meados do século XVI, nos engenhos em meio à produção do açúcar. Não existe um registro definitivo sobre a primeira destilação, mas uma das versões mais conhecidas conta que a bebida surgiu a partir do próprio processo de fabricação do açúcar.
A espuma retirada dos tachos durante a fervura do caldo de cana era colocada em cochos e, com o tempo, fermentava. O líquido, conhecido como “cagaça”, teria chamado a atenção por seus efeitos e passado a ser aproveitado. A partir daí, o líquido fermentado começou a ser destilado, dando origem à aguardente de cana que mais tarde seria conhecida como cachaça.
Segundo algumas narrativas histórica a bebida passou a fazer parte da rotina dos escravos submetidos ao pesado trabalho nas plantações e nas fábricas de açúcar.
Há relatos de que os senhores de engenho ofereciam cachaça aos escravos para aguentarem o trabalho pesado e suportarem o frio. Por ser produzida em abundância nos próprios engenhos, a bebida era barata e estava muito mais próxima da realidade dos escravizados.
A cachaça também ganhou importância nas relações comerciais do período. A bebida chegou a ser utilizada como mercadoria de troca na compra de pessoas escravizadas na África, integrando uma engrenagem econômica que envolvia açúcar, aguardente e tráfico de pessoas.
Quando a cachaça virou motivo de revolta
Mas a história da bebida não ficou restrita aos engenhos. A cachaça também acabou entrando em um dos episódios mais curiosos de resistência do Brasil colonial.
No século XVII, a cachaça começou a incomodar os interesses comerciais da Coroa Portuguesa. Produzida em grande quantidade nos engenhos brasileiros, a bebida concorria diretamente com produtos portugueses, como a bagaceira, uma aguardente feita a partir do bagaço da uva, além dos próprios vinhos portugueses.
A disputa comercial levou a Coroa a proibir a produção e a comercialização da cachaça. A medida, porém, não conseguiu impedir que a bebida continuasse sendo produzida e consumida de forma clandestina. Diante da dificuldade de acabar com a atividade, a estratégia da Coroa foi aumentar fortemente os impostos.
A pressão tributária gerou a insatisfação entre produtores de cana e proprietários de alambiques se uniram contra a Coroa. E, no Rio de Janeiro, a revolta ganhou força e acabou dando origem à Revolta da Cachaça, um dos primeiros movimentos de contestação ao poder da Coroa Portuguesa no Brasil.
Os revoltosos chegaram a tomar o poder no Rio de Janeiro por alguns meses, mas a reação da Coroa veio com força. E, o líder do movimento, Jerônimo Barbalho Bezerra, foi preso, enforcado e decapitado. Sua cabeça foi pendurada no pelourinho da cidade como forma de punição e intimidação da população.
A revolta, porém, teve um desfecho que ajudaria a eternizar a data. Em 13 de setembro de 1661, uma Ordem Régia autorizou oficialmente a produção e a comercialização da aguardente, porém os impostos vieram mais altos. A data passou, séculos depois, a ser lembrada como o Dia Nacional da Cachaça.
Assim, uma bebida que havia surgido nos engenhos acabou também associada a um episódio de enfrentamento às imposições da Coroa Portuguesa.
E existe ainda outra história, dessas que atravessam o tempo mais pela tradição do que pelos documentos. Conta-se que, anos depois, já no século XVIII, durante a Inconfidência Mineira, os inconfidentes teriam usado a cachaça como símbolo de protesto e patriotismo. Como outras bebidas consumidas pela elite colonial eram trazidas de Portugal, brindar com uma aguardente produzida no próprio Brasil representaria a valorização do que era nacional e a rejeição aos produtos e aos impostos impostos pela Coroa Portuguesa.
Artesanal, industrial e com sotaque brasileiro
Quem acha que cachaça só tem um tipo está muito enganado. Hoje existem cachaças envelhecidas em diferentes tipos de madeira, saborizadas, rótulos premiados, produtores artesanais que transformaram a fabricação em um verdadeiro trabalho de precisão e produções industriais muito grandes e famosas.
A produção pode ser industrial ou artesanal, esta última tradicionalmente associada aos alambiques. Em cada processo, pequenas diferenças na matéria-prima, na fermentação, na destilação e no envelhecimento ajudam a construir perfis diferentes para a bebida.
E se existe uma combinação que ajudou a levar a cachaça para o mundo, é a caipirinha.
Cachaça, limão, açúcar e gelo. Uma receita simples, mas que virou um dos cartões-postais gastronômicos do Brasil e ajudou a colocar o destilado brasileiro no mapa internacional.
A legislação brasileira estabelece que a cachaça seja produzida a partir da destilação do mosto fermentado do caldo de cana-de-açúcar e tenha graduação alcoólica entre 38% e 48% em volume.
Da pinga ao produto de exportação
Séculos depois, aquela bebida que durante muito tempo foi vista como produto de menor prestígio ganhou espaço, qualidade e reconhecimento. E os números mostram que a velha conhecida dos brasileiros também virou um negócio de grande escala.
Segundo o Anuário da Cachaça 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária, o país fechou 2025 com 1.538 estabelecimentos produtores registrados, espalhados por 844 municípios. O número de cidades com produção formal cresceu 14,8% em relação ao ano anterior.
Minas Gerais aparece na liderança, com 564 estabelecimentos, o equivalente a 36,7% do total nacional. São Paulo vem na sequência, com 230, e o Rio Grande do Sul aparece em terceiro, com 106 unidades.
O levantamento contabilizou ainda 8.379 produtos de cachaça registrados no país. Minas Gerais concentra 2.922 desses produtos, enquanto São Paulo aparece com 1.185.
A produção declarada também impressiona: foram 234,4 milhões de litros em 2025.
Apesar de a bebida ter conquistado espaço fora do país, é o brasileiro quem continua garantindo boa parte desse mercado. A comercialização ocorre principalmente dentro do próprio território nacional, com forte presença nos mercados próximos às regiões produtoras.
No exterior, porém, a cachaça também vem abrindo caminho. Em 2025, foram enviados 7,95 milhões de litros para 76 países, movimentando US$ 17,07 milhões em exportações.
Neste 13 de setembro, portanto, o brinde é mais do que pela cachaça. É pela história de uma bebida que nasceu brasileira, atravessou séculos, sobreviveu às tentativas de proibição e ganhou seu lugar entre os grandes destilados do mundo.













