GIRO NA ECONOMIA – A recente desvalorização do dólar frente ao real precisa ser analisada com cautela. O movimento observado não decorre, predominantemente, de uma melhora estrutural no ambiente macroeconômico brasileiro, mas sim de fatores externos que têm exercido influência direta sobre a moeda norte-americana.
Se considerados exclusivamente os fundamentos internos — como o déficit nas contas públicas, a situação fiscal das estatais, o aumento da carga tributária sem efeito proporcional no orçamento e a instabilidade política típica de ano eleitoral — o cenário não indicaria, por si só, uma pressão consistente de queda sobre o dólar. O ambiente doméstico permanece volátil e fiscalmente sensível.
Um dos pontos centrais envolve as incertezas em torno das decisões do presidente Donald Trump, especialmente no que se refere à escolha do novo comando do Federal Reserve (Fed). Investidores monitoram com atenção a possibilidade de uma indicação alinhada politicamente ao governo, o que poderia gerar pressões por cortes de juros e suscitar questionamentos sobre a independência do banco central norte-americano. Ainda que o impacto concreto seja incerto, o mercado tende a reagir preventivamente a esse tipo de risco institucional.
Outro fator relevante é o retorno das discussões sobre um possível “shutdown” — paralisação parcial do governo dos Estados Unidos — em razão de impasses orçamentários no Congresso, especialmente ligados a despesas na área de segurança. O histórico recente de interrupções na administração federal americana aumenta a sensibilidade do mercado a esse tema e contribui para a instabilidade do dólar.
No campo geoeconômico, a consolidação de novos acordos comerciais também altera o equilíbrio global. A União Europeia e a Índia concluíram recentemente um acordo após cerca de duas décadas de negociações, formando um dos maiores blocos comerciais do mundo em termos populacionais, com mais de 2 bilhões de pessoas potencialmente impactadas. A ampliação das relações comerciais fora do eixo tradicional reforça outras moedas e reduz, ainda que marginalmente, a dependência do dólar em determinadas transações internacionais.
Além disso, movimentos estratégicos envolvendo China e Rússia e a retomada de políticas tarifárias por parte dos Estados Unidos — incluindo novas tarifas aplicadas a parceiros comerciais — adicionam ruído ao ambiente internacional e contribuem para a perda relativa de força da moeda americana.
Nesse contexto, observa-se também um desempenho positivo das bolsas, tanto no exterior quanto no Brasil. A queda do dólar tende a favorecer mercados acionários, especialmente em países emergentes, tornando ativos locais mais atrativos no curto prazo.
Em síntese, o atual enfraquecimento do dólar está mais associado a fatores externos — institucionais, fiscais e geopolíticos — do que a uma melhora estrutural do cenário brasileiro. A sustentabilidade desse movimento dependerá, sobretudo, da evolução do ambiente internacional e da capacidade do Brasil de enfrentar seus próprios desafios fiscais e macroeconômicos.
Vitor Vargas
Consultor V.V Consulting














